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Professores e aprendizes
– a prática educativa como lugar da contradição
Universidade Federal de Campina
Grande
Colóquio Brasileiro Educação na Sociedade Contemporânea
Trabalho e Formação Docente na Contemporaneidade (15 a 18 de
junho-2008)
Maria
de Fatima Felix Rosar
Para darmos início ao nosso diálogo, poderemos
reconhecer alguns pontos de partida e, quem sabe, de
convergência ou divergência, talvez, entre perspectivas
teórico-práticas difundidas na área da educação.É muito provável
que se estabeleça assim um movimento dialético entre
aproximações e distanciamentos e se isso ficar nítido em nosso
pensamento, teremos, desse modo, uma primeira aproximação com o
cerne de um tema que se apresenta de forma instigante. Onde
emerge a contradição? Qual o conteúdo das contradições que
vivenciamos?
Vejamos que possibilidades de leitura podem se
configurar sobre esse tema, considerando-se a polissemia
inscrita em nossa linguagem e em nosso pensamento, sempre que
expressamos idéias, concepções, resultados de experiências e
práticas materializadas no nosso cotidiano.
Quando falamos de professores e aprendizes,
podemos entender que se estabelece na prática educativa uma
relação pedagógica entre professores e alunos. Mas, também
ocorre, embora nem sempre se ressalte em primeira mão, que os
professores, nós mesmos, somos ao mesmo tempo professores e
aprendizes numa sala de aula.
Se optarmos pelo tratamento dessa relação
intrínseca entre cada um de nós e o seu Outro, de que podemos
falar, senão do nosso modo próprio de ensinar e aprender?
Entretanto, se reconhecermos que a nossa identidade se constitui
no duplo movimento de ensinar e aprender, onde reside a
contradição? Não somos um ser duplicado, logo estamos falando de
um ser uno. Porém, esse ser uno provoca dissonâncias em seu
próprio mundo interior, a partir de seu posicionamento no mundo
real.O mundo real define em grande medida o conteúdo da nossa
subjetividade, o que não significa que nossas escolhas e
projetos não produzam também impactos sobre a realidade
concreta.
Do que estamos falando exatamente, ao propormos
uma abordagem desse tema, a partir de uma lógica dialética, que
nos apresenta desdobramentos, de um modo controvertido e até
paradoxal, se levarmos em conta que estamos, em certa medida,
nos colocando no centro de um debate que tem se constituído como
um divisor de águas entre o pensamento crítico de viés marxista
e o pensamento pós-moderno, desenvolvido a partir das abordagens
de caráter multicultural, foucaultiano e micro-histórico?
Na realidade, busco contribuir para a construção
de aproximações possíveis entre o pensamento histórico-dialético
e a abordagem psicanalítica, considerando a dimensão
histórico-objetiva e estrutural-subjetiva, trazendo indícios de
que a prática educativa, como lugar da contradição precisa ser
melhor clarificada, se se pretende desenvolver a condição mais
contínua de seres que ensinam e aprendem simultaneamente. Isso
não nos priva do reconhecimento de que somos professores. E
sabemos que professores podem ser mestres e mestres são
inesquecíveis. Mas, quem educa precisa se educar, diariamente,
já nos alertava Marx ao indagar: quem educa o educador?
O espaço da prática educativa no cotidiano das
nossas salas de aula está repleto de contradição. Vejamos de um
ponto de vista mais objetivo e, ao mesmo tempo, de um ponto de
vista mais subjetivo, de que modo se expressa essa contradição e
de que modo podemos admiti-la como mediadora de processos de
desenvolvimento humano mais avançado, se não nos negarmos a
identificá-la.
Estamos na condição de professores responsáveis
pela educação de muitas gerações há muitos séculos. Na
realidade, os educadores constituem-se como pedagogos (aqueles
que conduzem os educandos), desde a Grécia, mesmo que não
estivessem recebendo essas denominações e não estivessem sendo
valorizados pelo papel exercido de modo mais marginal, na
sociedade grega. Manacorda nos lembra que “ provavelmente a
evolução histórica foi do escravo pedagogo e mestre na própria
família ao escravo mestre das crianças de várias familiae
e, enfim, ao escravo libertus que ensina na sua própria
escola.” (1989:78)
E, desde a Grécia, sabemos que algumas práticas
educativas, tal como ocorreu com os seguidores de Sócrates,
Platão, Aristóteles, Epicuro, estavam direcionadas à reflexão
sobre a realidade e sobre o interior dos seres humanos, com a
perspectiva de que precisamos nos conhecer e precisamos
estabelecer um caminho de busca do conhecimento, da sabedoria e
da felicidade.
Fomos educados para sermos educadores por, pelo
menos, uma dúzia de professores que, desde o ensino fundamental
até o ensino superior compuseram suas imagens, palavras,
conceitos, cenários, no nosso pensamento, povoando o nosso
imaginário, tanto em sua dimensão cognitiva como afetiva.
De tudo que recebemos, processamos aquilo que foi
possível processar, mediante uma maneira de elaboração que
ocorre de modo consciente e, também, inconsciente. Reproduzimos
muitas vezes o modo de atuar em uma sala de aula, tal como fazia
um professor ou uma professora, sem que sequer tenhamos
identificado o quanto repetimos certas práticas assimiladas
pelos exemplos que nos foram dados concretamente. É claro,
assimilamos, muitas vezes, exemplos mais saudáveis e mais
marcantes, do ponto de vista intelectual e emocional.
Entretanto, muitas vezes, estamos reproduzindo práticas pouco
saudáveis, que foram associadas ao nosso núcleo subjetivo mais
problemático, onde se instalam as neuroses que todos nós
portamos, como seres humanos.
Em estudos feitos com professores, alguns
depoimentos indicam a complexidade desse lugar de professor na
sala de aula. “Alguns professores relatam ter dificuldade em
lidar com seu lugar de autoridade, e ocupar este lugar quando é
confundido com autoritarismo. Outras dificuldades se referem às
expectativas do professor quando professor e aluno não se
encaixam, pois o aluno se coloca submisso a ele e perde a
capacidade de pensar por si próprio.” ( SILVA, 1994:79)
Se são tão complexas as relações que se
estabelecem em sala de aula e sabemos da importância do nosso
papel na constituição desse espaço, a pergunta que se coloca, de
modo inevitável é: Estou construindo as condições necessárias
para ocupar esse lugar de professor, de mestre?
Vale pensar como nos constituímos efetivamente em
seres humanos mais ou menos saudáveis, mais ou menos
contraditórios. Mais ou menos integrados ou desintegrados. Qual
a nossa condição em termos concretos, objetivos e subjetivos,
para realizarmos as práticas educativas dentro e fora da escola?
Ao contrário de Hobbes e Locke, Hegel e Marx
identificaram o processo de construção da condição humana no
leito da história. Claro, Marx foi muito além da dialética
hegeliana, ao evidenciar que é na história, mas,
particularmente, no mercado, que se constrói o processo de
sociabilidade, ao mesmo tempo em que estão dadas as condições de
descaracterização da dimensão humana. Ou seja, o modo de
inserção no processo de produção capitalista, na condição de
força-de-trabalho expropriada e alienada, nos conduz a um quadro
progressivo de degradação humana, que pode, pouco a pouco, nos
desumanizar.
Se é assim que se compreende a constituição de
nossa subjetividade como seres humanos e, portanto, também, como
professores, nascemos no leito da história onde emerge a
contradição real desse processo de constituição humana. Estamos
em meio a um processo histórico em que, para a maioria dos seres
humanos, são negadas as condições de desenvolvimento ampliado e
multidimensional. Potencialmente, somos todos seres omnilaterais,
porém a organização do trabalho na sociedade capitalista define
trajetórias, percursos, projetos de vida coletiva, condicionando
a classe trabalhadora a um processo de “encolhimento”, uma vez
que não lhe é garantida possibilidade de acesso à ciência, à
cultura, à prática de desenvolvimento corporal, à expansão do
pensamento e de sua prática social.
Historicamente, a educação destinada à massa de
trabalhadores nas cidades foi sempre precária e deficiente. Marx
e Engels recolheram evidências dessa situação na Inglaterra e
produziram trabalhos apresentados em Congressos e publicados em
livros, como Le Syndicalisme (Marx e Engels) e a Situação das
Classes Operárias na Inglaterra (Engels).
Em notas de Marx relativas aos relatórios de
inspetores em 1857, fica patente o engodo que se produzia nas
escolas nas quais se mantinham as crianças para obterem uma
certificação de escolaridade. “Quando visitei uma escola que
passava tais certificados, fiquei de tal maneira chocado com a
ignorância do mestre, que lhe disse: 'Perdão, Senhor, sabeis
ler? 'O quê, um bocadinho', foi a resposta; e para se
justificar, acrescentou: 'Em todo o caso, sei mais do que os
meus alunos`” (Marx e Engels, Crítica da Educação e do Ensino,
Lisboa, Moraes, 1978, p.66).
Estavam dadas essas condições de educação
destinada aos filhos dos trabalhadores no século XIX. Será
possível considerarmos que no século XXI são muito diferentes as
condições de funcionamento das escolas públicas? Claro que são
diferentes. Elas têm uma infra-estrutura melhorada, dispõem de
mais espaço, mais livros e até equipamentos como televisão, dvd,
computadores. No entanto, estão as crianças, na atualidade, em
escolas em que os professores estão realizando um processo de
ensino-aprendizagem exitoso?
Se tomarmos os dados do Ideb, na maioria dos
estados brasileiros, existe motivo de preocupação, nesse
sentido. Se tomarmos os indicadores do último relatório Unesco,
recém-publicado, os dados do Brasil continuam críticos.
Ocorre que os professores estão progressivamente
se qualificando em nível superior, portanto, nem de longe
reproduzem a situação do quase analfabetismo dos mestres do
século XIX na Inglaterra. Por outro lado, têm dificuldade de
produzir práticas educativas mais exitosas, apesar das novas
teorias difundidas e até apreendidas nos mais variados cursos,
capacitações, congressos em que circulam os modelos da
atualidade: professores reflexivos, professores-pesquisadores,
professores leitores e produtores textuais,
professores-orientadores, professores-mediadores.
Talvez essa realidade entre teorias e práticas
consideradas muito atualizadas estejam produzindo uma nuvem de
fumaça que não nos permite identificar onde se produzem as
contradições da prática educativa, que continuadamente
realizamos durante décadas, como professores e, até mesmo, como
reconhecidos mestres.
Uma das evidências dessa contradição diz respeito
ao fato de que a nossa origem de classe, predominantemente
alinhada com a identidade da pequena burguesia, da classe média,
nos conduz, no nível do imaginário, à fantasia de nos
igualarmos, em termos de condições de vida, com o status
e o modus vivendi da classe abastada. Os sonhos de
consumo dos professores, de modo geral, estão muito distantes
da realidade da vida das crianças e jovens pobres que
encontramos nas salas de aula. Somos referências para eles,
podemos ser até mesmo modelos para crianças e jovens que têm
relações sociais muito mais restritas no seu círculo de vida
familiar e social.
De que modo, com a nossa escolha por um modo de
vida mais alinhado aos imperativos do mercado, influenciamos
os nossos alunos? Buscamos o status de uma classe que não
corresponde à nossa origem social? Já tive oportunidade de ouvir
de algumas pessoas que em muitas capacitações transmite-se aos
professores a receita do sucesso, de como se conhece as pessoas
bem-sucedidas pelas suas vestes, seu modo de andar, seus
pertences pessoais. (Não sei se já viram como Revistas de bordo
em vôos de várias companhias aéreas nos apontam os pertences de
uma pessoa bem sucedida, como indicadores de características de
seu modo de ser.)
Como nos colocamos frente aos nossos alunos?
Estamos em geral mais distantes de sua realidade, porque temos
uma certa necessidade de negar uma origem mais simples, frente
aos padrões de sucesso e de gozo material que indicam sucesso
profissional, de acordo com os idealizadores das fórmulas da
pedagogia de resultados.
Esses parâmetros que nos são inculcados, a partir
da lógica do mercado, produzem muitos outros impactos além do
nosso distanciamento em relação aos nossos alunos. Na verdade,
distanciamo-nos de nós mesmos, ao assumirmos características de
personagens formatados pelo mercado.
Para o mercado seremos seres cada vez mais valorizados enquanto
consumidores, à medida que estivermos integrados ao processo de
consumo do que é descartável, do que é supérfluo, do que é luxo
e lixo também.
Essa contradição entre ser e não-ser o sujeito
formatado pode produzir uma grande dissonânica interna,
levando-nos a uma situação de maior fragilidade na prática de
atuação diária como professores e aprendizes. Isso ocorre,
principalmente, se fizermos um processo de adormecimento do
pensar crítico, se fizermos uma cristalização da postura de
adesão aos padrões de sociabilidade e de mercantilização do
fazer pedagógico na sociedade em que vivemos.
A essa altura adentramos o núcleo de produção de
mais uma grande contradição que se instala na nossa prática de
professores e de mestres. Qual o nosso ideário de educação? O
que nos move? A busca de uma forma de sobrevivência numa
sociedade em que os postos de trabalho estão ficando escassos? A
possibilidade de intervir na realidade, promovendo práticas
educativas de caráter mais emancipador, que questiona a ordem
estabelecida e historiciza esse processo, situando as crianças e
os jovens no contexto de uma sociedade de classes?
Como podemos nos posicionar criticamente, se
alimentamos o nosso imaginário com as ilusões infantis do
consumo como fonte de prazer, que nos desloca das questões
relativas às nossas frustrações, ao luto pelas perdas, ao
reconhecimento dos nossos limites e do nosso conformismo diante
do status quo?
Somos seres históricos em permanente estado de
transformação. Entretanto, podemos ser “mumificados” se nos
deixarmos levar, de acordo com a nova moda, somente no nível da
superfície; sem termos a decisão de penetrarmos as nossas
próprias entranhas, de modo a identificarmos que espécie de
seres somos nós como educadores, em meio a um milhão de
possibilidades de nos travestirmos em posições verdadeiramente,
contrárias aos processos educativos transformadores.
Talvez precisemos cada vez mais nos colocar na
posição de aprendizes, se desejamos de fato ser professores e
mestres. Talvez tenhamos a necessidade inadiável de descobrir se
temos ou não “paixão de formar”, entendendo-se essa paixão como
“ser capaz de amar o outro na diferença própria do outro, ser
capaz de perdê-lo como discípulo e como extensão de si próprio,
mas ganhá-lo como colega pensante e independente. E, ao mesmo
tempo, ser capaz de reconhecer a dependência da relação
formativa, que se dá na medida em que o outro é importante para
haver o diálogo, o conhecimento, para se articular idéias, sendo
um interlocutor do outro.” (SILVA, 1994: 110).
Foi com Marx que aprendemos o quanto é alienante
o trabalho na fábrica. Com ele também aprendemos que a ciência
e a técnica fazem parte da base econômica e que ambas resultam
de um trabalho coletivo, sendo depois apropriadas e
monopolizadas pelo capital.
Essa situação que é tão concreta no atual momento
de desenvolvimento do capitalismo que expandiu a sua capacidade
de produção de bens materiais e imateriais, como mercadoria, nos
coloca diante do desafio de nos conscientizarmos de que somos
inseridos nesse processo de meracantilização.Somos também
tomados como mercadoria, se nos deixarmos ficar passivos nessa
sociedade em que Estado e Mercado são instâncias que se
interpenetram e se potencializam no projeto de manutenção da
ordem burguesa.
Nessas condições é necessário realizar uma luta
no domínio ideológico; uma luta de idéias, de ideais que possam
promover o desvelamento das contradições em que estamos imersos
e que constituem parte substancial do nosso mundo subjetivo,
sem o que nos deixamos apreender pelas armadilhas dos processos
de sedução do brilho e do fetiche inscrito no mercado dos bens
materiais e das idéias que fundamentam as nossas relações
pedagógicas e o nosso modo de atuar como educadores na
sociedade.
Para sermos ao mesmo tempo professores e
aprendizes, necessitamos expandir o nosso pensamento, a partir
de práticas educativas que nos permitam questionar as nossas
próprias certezas. Sabemos o quanto somos capazes de produzir
mudanças, embora isso não produza uma transformação radical em
termos da vida material dos nossos alunos. Entretanto,
precisamos de modo programático e sistemático demonstrar para os
nossos alunos que o dinheiro não substitui a inteligência. Que o
capitalismo destrói a humanidade inscrita potencialmente nos
seres humanos. Que o espaço do conhecimento e da cultura resulta
da construção histórica de todos os trabalhadores em todos os
séculos.
Marx dizia em seus Escritos Parisienses, em 1844:
“Na sociedade mercantil desenvolvida em que
vivemos presentemente, a inteligência vende-se e compra-se
sistematicamente, e é com o dinheiro que nascem as
universidades, enquanto a ciência venal funciona mediante um
salário – e o patrão é o pagador. O dinheiro liga e mede tudo
como escreve Shakespeare: ' Ora! Deus visível que liga
estreitamente as coisas incompatíveis, e as obriga a
abraçarem-se, que fala por todas as bocas e une o que é contra a
natureza.” No período venal do capital, os artistas e pensadores
são constrangidos à mediocridade e ao silêncio.( Marx e Engels .
Crítica da educação e do ensino, Lisboa, Moraes, 1978:26).
E nós professores-aprendizes, o que fazemos com a
nossa prática educativa? De que modo podemos enfrentar a
contradição entre ser e não-ser educador diante das estratégias
ideológicas do Estado e do Mercado?
Referências bibliográficas
MARX, K. e ENGELS, F . Crítica da educação e do
ensino, Lisboa, Moraes, 1978
MANACORDA, Mario Alighiero. História da educação.
Da antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez:Autores
Associados, 1989.
SILVA, Maria Cecília Pereira da. A Paixão de
formar. Da psicanálise à educação. Porto Alegre, Artes Médicas,
1994.
UNESCO. Relatório da situação da educação. 2008
[2]
“A identificação com os aspectos 'ideais' do professor é
algo que foi observado quando descrevi os modelos de
professor que interferiram nas escolhas profissionais. A
isto chamo de “figuras de identificação”. (SILVA, 1994:108).
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